...eis que surge isto:
Vou, nesta dissertação, tentar arquitectar o primeiro post verdadeiramente sério no meio das inumeráveis parvoíces que este blog alberga. Talvez devido à circunspecção que o assunto que escolhi abordar impõe, talvez para quebrar a monotonia em que o blog se tem envolvido, o que é certo é que vou exortar o mais equitativamente possível.
Assim, vou tentar construir um texto imparcial, não cedendo a certas ideias estereotipadas na minha mente por acontecimentos como o 11 de Setembro ou o 11 de Março e pela violência, pela destruição, pela opressão e intolerância que o fundamentalismo islâmico prescreveu recentemente no mundo. Até porque também o ocidente foi já dominado por dogmas e crenças religiosas, pela coacção moral e pela intransigência, quando a Santa Inquisição detinha o poder. Felizmente esse tempo já lá vai, e a civilização ocidental desenvolveu-se em torno da democracia, construindo a mais livre, a mais justa e a mais predisposta ao aperfeiçoamento das sociedades. Só na civilização ocidental é que a exigência moral da liberdade é amplamente reconhecida e posta em prática. No entanto, quando a imposição liberal da civilização ocidental se revela reciprocamente oposta às crenças religiosas e dogmas do mundo islâmico, o desfecho é inevitavelmente funesto.
Como é do conhecimento público, 12 caricaturas ilustrativas de Maomé, ícone supremo da religião muçulmana, foram publicadas no jornal dinamarquês
Jyllands Posten, levando a um reavivar do mais antigo dos conflitos, o choque civilizacional das culturas ocidental e oriental. Desta vez está em causa um conflito directo entre a tolerância religiosa e a liberdade de expressão. Por um lado, temos os muçulmanos, alegando que a ridicularização de que o seu profeta, Maomé, foi alvo, constitui um atentado perfeitamente gratuito aos seus valores e crenças, numa tentativa desrespeitosa de desacreditar os ideais islâmicos. Por outro lado, os europeus invocam a liberdade, ponto fulcral dos direitos humanos, para justificar, de algum modo, a publicação das badaladas caricaturas.
Certo é que, considerando a situação de tensão que se faz sentir entre o mundo ocidental e o mundo oriental, aprestamo-nos que não foi utilizado o bom senso na decisão de publicar os
cartoons de Maomé. No entanto, assim como os muçulmanos detêm o poder legítimo de sentirem-se ofendidos com o sucedido, também aqueles que não se servem do bom senso têm o direito à tolerância. Assim, penso que as exigências de pedidos de desculpa que alguns países islâmicos ostentaram ao Estado dinamarquês pelas acções de um jornal independente, se revelam totalmente ilegítimas. Ilegítimo também, é o comportamento que os radicais islâmicos (que não são, aparentemente, tão poucos quanto isso) demonstraram em resposta às caricaturas, provocando a desordem, numa onda de violência, de destruição e de ameaças à integridade e ao património europeus. Ou será que se pode aceitar que uma ofensa seja rastilho de violência? A resposta é claramente não.
Curiosa foi a atitude melindrosa que algumas opiniões públicas tomaram relativamente a toda esta situação, acedendo às imposições islâmicas por apreensão às represálias de que a Europa poderia ser vítima do ponto de vista económico e diplomático, ou mesmo por estar a habilitar-se a ser vítima de mais um atentado terrorista em nome de Ala. A partir do momento em que se aceita a censura infligida por indivíduos cujas crenças religiosas se baseiam numa norma moral escrito há mais de 600 anos, renega-se o mais básico dos direitos, aquele de que tanto nos orgulhamos de defender e praticar - a liberdade. Era de esperar que o Ocidente se mantivesse unido e suprimisse rapidamente este problema. Surpreendentemente, tal não se veio a verificar. Fala-se muito na chamada intolerância religiosa. Mas será que essa intolerância é de quem publica os
cartoons ou de quem os quer abolir?
Apesar de baptizado como cristão, considero-me como sendo ateu. No entanto, respeito a susceptibilidade religiosa dos demais, por mais paradoxais que estas me possam parecer. Mas, por acreditar nos valores que me foram incumbidos, entre os quais a liberdade, não posso condenar quem brinque com a religião, com a orientação sexual das pessoas, com um clube de futebol à descrição, ou com o que quer que seja, porque, como já referi anteriormente, a falta de melindre também tem direito à existência.
Bem, esta é a opinião de um miúdo europeu com pouca experiência de vida e pouca cultura ainda. Uma opinião facciosa? Provavelmente. Dissonante? É possível que sim. No entanto, é uma opinião livre. Escrevo neste espaço porque é essa a minha vontade, assim como só lê isto e concorda ou não comigo quem quiser. É por isso que amo o mundo ocidental, por este me conceder a possibilidade de fazer ou não qualquer coisa por livre arbítrio da minha mente, dentro, claro, dos limites impostos pela lei.
Just my 2 cents...